Apesar de estar próximo dos 14 anos de existência, tempo considerável para um sujeito coletivo, boa parte da base e militância do PSOL parece ainda se comportar como um sujeito individual de mesma idade. Não é necessariamente o caso da executiva nacional e de membros da bancada federal, composta por políticos com mais experiência como Luiza Erundina (SP) e Edmilson Rodrigues (PA) que já governaram capitais e sabem que uma coisa é ser oposição e outra é ser governo (apesar de Erundina parecer esquecer isto convenientemente, como demonstrado mais adiante). Ao falar de base e militância, me refiro aos setores do partido que ocupam DCE’s, sindicatos e demais organizações Brasil afora que no máximo possuem representação nos diretórios estaduais.
O PT traiu o povo. Ok, mas e aí, campeão?
Existe
uma tese difundida por estes grupos de que o PT, Lula etc. traíram o povo e,
com ajuda de um malabarismo sofismático, conseguem chegar à conclusão de que
não houve golpe na deposição de Dilma Rousseff, posição extremamente
irresponsável por quem se diz combatente da direita. Na verdade, se trata de um
problema de miopia política desse grupo, compartilhada com o PSTU, que julga como
direita todo mundo que não for o próprio PSOL. Não entrarei no mérito de
discutir esta tese, bem fraca ao meu ver, no momento. O que questiono é: o que
o PSOL, depois de quase uma década e meia de existência, já propôs para o povo?
Que o partido foi criado com base em discordâncias com os rumos que o PT tomou
todo mundo já sabe. Mas e depois?
Com
base nas três candidaturas à presidência que o partido já lançou - Heloísa Helena em 2006, Plínio de Arruda Sampaio
em 2010 e Luciana Genro em 2014 - é possível responder que nada de decente foi
proposto até agora. As candidaturas basicamente são pautadas mais na decepção
com o que PT deixou de ser e na tentativa de não serem eleitos. Sim, é isso
mesmo. Parece que os psolistas fazem de tudo para não ganhar eleição. Veja este
vídeo em que Plínio de Arruda Sampaio coloca isto claramente.
O
mesmo Plínio, figura respeitável pela sua biografia (Plínio foi o deputado
relator do projeto de reforma agrária durante o governo Jango em 1964), pediu
votos para José Serra em 2010. Sei que esta não era a posição oficial do
partido, mas Plínio além de ser figura importante era o candidato à presidência
pelo PSOL. Não poderia se esperar que pedisse votos a Dilma, posição improvável
de quem se sente traído pelo PT, mas pedir votos para Serra é no mínimo
estranho para quem com miopia política não consegue diferenciar PT de PSDB.
Revela claramente que o compromisso do PSOL não é com o povo, a quem o PT
supostamente traiu, mas com o seu próprio mimimi de filho adolescente em
relação ao pai.
As frescuras (sic.) e contradições do PSOL
Voltando
ao ponto sobre como os psolistas lidam com eleições, é impressionante como o
PSOL não aprende nada com a própria história – não apenas a partir de sua fundação,
mas desde antes como tendência do PT – e com o sistema político-eleitoral
brasileiro. O PT dos anos 80 e 90 promoveu a fragmentação do pensamento de
esquerda ao achar que somente ele traria as soluções ao Brasil. Com o discurso
moralista do combate a corrupção, hoje repetido pelo PSOL, contribuiu bastante
para o cenário político nada agradável de hoje. Não à toa Darcy Ribeiro
classificava o PT como a esquerda que a direita adora. Ou seja, a direita adora
a esquerda que em suas ações parece fazer de tudo para não chegar ao poder. O
PT x PSDB (a legenda tucana, antes de assumir o governo federal, era uma
legenda progressista) provinciano de São Paulo, reproduzido nacionalmente,
mostra as suas consequências hoje em dia. E o PSOL parece ignorar isto.
A entrevista
com Lula no programa do José Trajano deu o que falar. Ao dizer que “metade da
frescura vai acabar” caso o PSOL conquistasse alguma prefeitura grande ou algum
governo de estado, Lula se refere a imaturidade de muitos membros do partido
que não entendem que para executar projetos políticos no Brasil, com a nossa
péssima legislação eleitoral, não há como não fazer alianças. Fico com a
impressão que esquecem que figuras como Sarney, Maluf, Cunha, Barbalho, Jucá
etc. não chegam aos seus cargos por um truque mágico: o povo os elegeu. E se o
povo dá ao executivo estes legisladores, é com eles que o governo terá que
negociar. Simples assim.
Quem reside em
Belém pôde testemunhar as últimas duas eleições municipais que Edmilson
Rodrigues disputou. Tendo sido prefeito entre 1997 e 2003 quando ainda estava
no PT, não é raro ouvir um certo saudosismo da época de sua gestão (ainda que
obviamente não seja unanimidade). Isto é evidenciado sempre nas primeiras
pesquisas eleitorais quando o ex-prefeito aparece em primeiro lugar com no
mínimo 40% das intenções de voto. Sua base fiel de eleitores sempre o elege com
folga para cargos do legislativo. No entanto, ao longo da campanha o cenário
acaba mudando já que seus adversários possuem melhor estratégia eleitoral. Qualquer
manobra que Edmilson fazia para tentar conseguir votos, membros de correntes
internas lançavam notas de repúdio protestando. Não estou dizendo que para se
eleger vale tudo. Mas na lógica psolista aqui em Belém, melhor que o povo
continue sofrendo com a péssima gestão do atual prefeito, Zenaldo Coutinho
(PSDB), após 8 anos da gestão de Duciomar Costa (PTB), igualmente ruim (na
verdade, acho que Zenaldo conseguiu superá-lo), do que o PSOL perder a sua
pureza esquerdista de contra todos que estão aí.
Chegar ao
poder executivo é o que realmente faz diferença em vez de eternamente ser uma
bancada barulhenta em uma casa legislativa. O PT, por exemplo, não conseguiu
fazer nada a respeito do salário-mínimo enquanto era oposição, mas enquanto
governo o salário-mínimo foi constantemente reajustado acima da inflação, o que
fez uma diferença enorme na vida de muita gente, com certeza muito mais do que
a eterna boa vontade que o PSOL tem. Uma agremiação que pretende apenas
propagandear boas intenções, sem tomar medidas efetivas para melhorar seu
desempenho eleitoral, não parece muito com um partido político. Está mais para
uma ONG ou coisa do tipo.
O
mais interessante é que muitos membros adoram falar do comportamento
político-eleitoral de Lula e o PT, mas esquecem de olhar para dentro de casa.
Luiza Erundina declarou, em resposta a Lula, que "deveria dirigir ataques a parceiros de direita que o traíram". O curioso é que em 2004 ela
se candidatou à prefeitura de São Paulo com uma aliança com o PMDB. Sabem quem
era o seu candidato a vice? Nada mais, nada menos que Michel Temer. Ela até
declarou que Temer à época não era este Temer de agora. Claro que se fosse o
Lula declarando isso, a desculpa não colaria para os psolistas. E a filiação de Erundina ao PSOL foi amplamente comemorada.
Guilherme Boulos
Confesso que tomei conhecimento da figura de Guilherme Boulos apenas recentemente, apesar de já conhecer o movimento que lidera. Setores do PSOL, principalmente ligados a Marcelo Freixo (RJ), querem lançá-lo candidato. Já outros setores estão chiando bastante com a possível candidatura, por ele não ser originalmente do PSOL – síndrome do lugar de fala – e pela proximidade com Lula, no contexto da condenação do petista. Freixo tem demonstrado certa maturidade política em algumas questões e a proposta de lançar Boulos como candidato é uma delas. José Luís Fevereiro, economista professor da UFRJ e membro da executiva nacional do PSOL – uma das poucas vozes lúcidas do partido – também defende a candidatura de Boulos. Se for efetivada, provavelmente será a melhor candidatura que o PSOL terá lançado até hoje, coincidentemente ou não por não ser membro originário do partido, contribuindo para a elevar o debate político no Brasil – principalmente após Heloísa Helena e Luciana Genro. Pode ser o começo para o PSOL deixar de ser uma dor de cotovelo institucionalizada.

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