A narrativa econômica ortodoxa não é neutra e objetiva



Há alguns séculos, principalmente a partir da Revolução Industrial, a atividade científica goza de uma credibilidade ímpar da sociedade em geral. Máquinas a vapor, lâmpadas, automóveis, computadores, remédios etc.; tudo que vem a nossa mente representar o que chamamos de progresso na humanidade é automaticamente atribuído ao saber científico. 


A neutralidade e objetividade do método científico seriam as chaves deste sucesso. Garantiriam a imunidade necessária para a construção de um corpo de conhecimento sério, sem interferência de ideias que representem mais os interesses particulares de indivíduos ou grupos em descrever o mundo como gostariam que fosse e não como realmente é. Caso não fosse assim, hoje em dia dificilmente estaríamos desfrutando de viagens de avião, aquecer a lasanha congelada no micro-ondas ou realizar pagamentos com cartão de crédito.


Fãs do pensamento científico, que defendem a ideia exposta acima com todo o vigor, estão em toda parte. Em Economia, esta visão é defendida por parte dos economistas ditos ortodoxos, os que seguem estritamente a Teoria Neoclássica. Reivindicam para si o verdadeiro conhecimento sobre economia com base na suposta neutralidade de seus métodos, tachando os demais economistas, ditos heterodoxos, como ideológicos. A objetividade da ciência como propriedade da "floresta" asseguraria que os vieses e ideologias das "árvores" que a compõem não interferem na formação do discurso científico. Porém, esta visão, pelo menos circunscrita ao pensamento econômico ortodoxo, não sobrevive a uma rápida análise de como de fato a "floresta" se comporta.


A confiança no escrutínio científico como filtro anti-ideológico


Para o fã ortodoxo, uma das evidências de como a ciência é neutra seria o procedimento adotado pela comunidade científica para distinguir a ciência boa da ruim - que no seu entendimento seria aquela contaminada por ideologias. Tal procedimento seria o "benchmark" das ciências e dos profissionais "bem sucedidos". Aqui, antes de qualquer detalhamento sobre o modus operandi científico, é possível perceber que o fã ignora uma simples premissa que aprende no primeiro ano de faculdade: correlação não implica relação de causa e efeito. Será que há algum estudo demonstrando que as ciências "bem sucedidas" o são por causa e não apesar do "benchmark"? Já que pessoas respondem a incentivos e economistas também são pessoas, não seria razoável supor que há bons incentivos, inclusive financeiros, para continuar reproduzindo, conscientemente ou não, o discurso ortodoxo, mesmo que a existência de tais incentivos não tenha qualquer relação direta com uma suposta correção do método cientifico?


De qualquer forma, o milagroso filtro anti-ideológico seria: 1) o pesquisador levanta uma hipótese acerca de um fenômeno de seu interesse; 2) esta hipótese é descrita por meio das regras da lógica formal e depois traduzida em um modelo matemático que servirá como referência para confrontar os dados; 3) o pesquisador coleta os dados e avalia, por meio de testes estatísticos, se o modelo pressuposto é adequado aos dados; 4) por algum meio, normalmente uma revista científica, o pesquisador publica seus resultados após uma análise minuciosa do texto feito por outros membros da comunidade científica. A "sobrevivência" da tese publicada ao escrutínio científico seria um indicativo de sua qualidade. Irei me ater somente ao quarto ponto pois, ao meu ver, é o mais ingênuo de todos.


Ao submeter um paper para publicação, normalmente o texto será avaliado pelo editor da revista e alguns revisores anônimos. Dedependendo de qual revista é escolhida, é provável que todos os avaliadores sejam especialistas na área. Aqui surge a primeira observação quanto a confiança - que às vezes poderia ser chamada até de fé - no escrutínio científico: o fã assume que o nível de especialização de seus avaliadores é um indicativo da qualidade da avaliação feita por eles. Não há nada de errado em assumir isto como verdadeiro, porém não signfica que não há premissas alternativas. Revisão por especialistas da área pode significar também exclusão de ideias alheias ao pensamento corrente as quais não necessariamente estão erradas.


É difícil saber ao certo qual destas interpretações reflete melhor a realidade. Talvez o que o ocorra seja um misto dos dois cenários ou até algo nada parecido com alguma das duas alternativas. Para além de saber qual dessas premissas está certa é necessário entender: na ausência de um critério objetivo, assumir como verdadeiro o escrutínio por pares como indicativo de qualidade de uma tese pode ser um monte de coisas, menos uma escolha não-idelógica.


Mesmo sendo verdade que a avaliação por especialistas corrobora a qualidade de uma tese, confiar que humanos operam como robôs infalíveis e livres de interesses seria ingênuo até demais para quem só enxerga o mundo sob a ótica neoclássica. Porém, parece que na prática é assim mesmo que os fãs da ortodoxia econômica agem. Afinal, visto que papers com conteúdo totalmente falso também são publicados, cientistas tendem a publicar apenas resultados positivos e economistas tendem a superestimar seus resultados através do viés interpretativo das estatísticas, fica claro que a objetividade e neutralidade como propriedade da "floresta" não está conseguindo conter os valores subjetivos e ideológicos das "árvores".


Vale destacar também que os métodos quantitativos das ciências "bem sucedidas" - muito utilizada por sociólogos, cientistas políticos e historiadores, ou seja, todo aquele "pessoal ideológico-miçanga" - não salvam ninguém da contaminação ideológica. Números são símbolos representativos de objetos e fenômenos tanto quanto letras. Lógica e matemática são linguagens assim como outras, faladas ou não, de diversas origens que utilizamos cotidianamente como a Língua Portuguesa ou LIBRAS. Não estou sugerindo que números e letras são a mesma coisa. Apenas ressalto que lançar mão de números e métodos quantitativos não isenta ninguém de incorrer em ideologias quando há possibilidade de interpretação dos resultados de acordo com as preferências do pesquisador, ou das convenções de sua comunidade científica. Será que todo economista ortodoxo tem critérios objetivos acerca da interpretação dos resultados de uma análise de regressão como o valor de p, do coeficiente de determinação  ou inclusive de qual interpretação sobre probabilidade, frequentista ou bayesiana, ele deverá adotar? Ou será que normalmente acabam aceitando e reproduzindo o que seus pares estão fazendo no momento - frequentemente a mando do orientador?


A ciência do "dá certo" ou ciência como engenharia

O fã do pensamento ortodoxo costuma traçar um paralelo entre a discussão interna das Ciências Econômicas com o debate no campo da Medicina, e a eficiência de métodos alternativos como a homeopatia, ou com qualquer outra área do conhecimento onde há conflito entre duas ou mais teorias. Neste momento, recorrem aos resultados práticos e positivos, num sentido de julgados como algo bom, para validar suas narrativas. Esta visão não é exclusiva de economistas ortodoxos, mas de todos que compartilham, em maior ou menor grau, uma visão cientificísta do mundo: a de superioridade da dita Ciência como busca da verdade e ode aos resultados práticos cotidianos que ela proporciona ao ser humano. Explico.

As facilidades da vida moderna - computadores e a internet, meios de transporte, tratamentos médicos, alimentos etc. - são produtos derivados do conhecimento científico (isto não está de todo correto, mas serve para o que quero expor aqui). Se hoje dirigimos um carro, devemos isto à física newtoniana. Se é possível hoje prever que uma criança em gestação poderá apresentar uma doença genética - e começar de imediato o tratamento - devemos isto a Gregor Mendel e demais geneticistas. Esta é a chamada ciência do "dá certo". Ou seja, são as aplicações dos conhecimentos científicos adquiridos que dão credibilidade ao método. Afinal, se o conhecimento científico não está certo, por que então os aviões não caem em regra - e quando caem, também é possível explicar cientificamente - ou as vacinas continuam protegendo pessoas e salvando vidas?

Uma forma de demonstrar por que este raciocínio é falho consiste em indagar se a Teoria da Relatividade de Einstein está correta. Se Einstein está correto, então ele refutou Newton. E se refutou Newton, caem por terra os princípios basilares do conhecimento científico utilizado para fazer um avião voar. Mas os aviões continuam decolando.

O que significa isso tudo? Significa que não são as aplicações que validam o conhecimento científico. A validade de uma teoria científica está na veracidade de suas premissas. As premissas da física newtoniana podem ser aceitas como verdadeiras somente em condições muito específicas, como as encontradas no nosso planeta e no nosso cotidiano. Por este motivo que os aviões continuam decolando. Porém, em sistemas físicos cujos elementos se deslocam em velocidades cada vez mais próximas da velocidade da luz, as premissas da física newtoniana deixam de ser verdadeiras pois são nestas condições que o espaço e o tempo deixam de ser absolutos. As implicações disto dificilmente serão observados por você a menos que adentre fundo na pesquisa em Física. Em outras palavras: se para você ciência boa é a mesma que faz um avião subir, então para você Einstein não foi um bom cientista.

Em Economia, este raciocínio foi introduzido por Milton Friedman em seu famoso Ensaio de Economia Positiva de 1953. Para Friedman, a qualidade de uma teoria científica não se dava pela veracidade de suas premissas, mas sim pela acurácia de suas previsões.

Ainda que hoje em dia possa haver cada vez menos economistas adeptos à escola de pensamento econômico de Friedman, não é o caso aqui criticar a Escola de Chicago em específico. O raciocínio friedmeniano de que os agentes econômicos se comportam como se as premissas adotadas fossem verdadeiras permeou e ainda permeia pelo meio ortodoxo. Esta é a visão de ciência como engenharia. Um engenheiro pode perfeitamente projetar um avião como se as premissas da física newtoniana fossem corretas, mas em um sentido universal elas não são. Assim como será difícil para um engenheiro tentar projetar qualquer coisa em um sistema cujos elementos se deslocam a velocidades próximas a velocidade da luz como se o espaço e o tempo neste sistema fossem absolutos. 

Desta maneira, o fã convenientemente dedica mais tempo aos métodos econométricos e a exposição dos resultados do que a verificar se é razoável assumir que os agentes econômicos se comportam da maneira como descreve. Tal reflexão talvez pudesse emergir no momento da coleta dos dados, mas é comum a utilização de bancos de dados já estabelecidos e construídos por terceiros que não tinham comprometimento nenhum com a pesquisa. Na prática, não há diferença em impôr que as pessoas se comportem da maneira que assume, principalmente ao sugerir o pensamento ortodoxo como o único adequado para o direcionamento de políticas públicas governamentais. Ou seja, na prática a ortodoxia é apenas outra panfletagem ideológica. 

Considerações finais


A narrativa econômica ortodoxa é importante, necessária e já trouxe muitas contribuições positivas ao progresso humano. A proposta deste texto era somente deixar explícito por que a dicotomia ortodoxia versus ideologia é falsa já que a ortodoxia é, em si, ideológica, ao contrário do que seus fãs dizem. Isto não desqualifica o trabalho daqueles que se identificam com a linha neoclássica de raciocínio, bem como não significa um ponto a menos para o time dos ortodoxos na inútil disputa com os heterodoxos.

Repare que em nenhum momento deixei explícita alguma definição de ideologia. Apenas deixei implícita a interpretação dos fãs acerca deste termo: uma visão normativa e político-partidária acerca de fatos mundanos. Além disso, evitei tratar de maneira minuciosa, ainda que tenha feito breves menções, sobre alguns pontos igualmente importantes para o debate aqui proposto como: a preferência pela visão popperiana de ciência a despeito de visões alternativas e igualmente válidas; o papel da linguagem na nossa compreensão dos fatos; a confusão que os fãs normalmente fazem entre sistemas naturais e sistemas sociais, tentando aplicar inadequadamente métodos de investigação do primeiro no segundo.

Todos estes pontos, e talvez outros que eu ignore, merecem atenção e espaço adequado. Porém, utilizando apenas os conceitos e interpretações que permeiam o meio ortodoxo com relação a atividade científica rotineira, é possível demonstrar, com auxílio de algumas evidências empíricas, que a neutralidade e objetividade da narrativa ortodoxa são ilusões e que o fã ortodoxo pode ser tão militante de uma ideologia quanto um sindicalista ou militante partidário, mesmo que nem tome consciência disso. A ideologia ortodoxa é reproduzida diariamente nas revistas científicas, nos congressos, pela imprensa comum e principalmente nas salas de aula, seja de maneira implícita ou explícita. A ortodoxia é apenas a ideologia dominante no cenário intelectual do debate econômico.


Existe ideologia boa e ruim? Não sei. Mas se tivesse que apostar, indicaria como ruim exatamente aquela que quer se apresentar como não-ideológica e como ciência boa.

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