Hoje ao arcordar, repeti a rotina diária básica de alguns brasileiros como eu: fui ao banheiro ao lado do meu quarto, lajotado, com uma pia, um chuveiro e um vaso sanitário com descarga. Fiz minhas necessidades, puxei a descarga e pude escovar os dentes e tomar banho com a segurança de que não iria contrair alguma infecção por entrar em contato com a água que sai da torneira e chuveiro. Alguns brasileiros...
Trabalhei durante um tempo como biólogo e consultor ambiental, sempre no Norte. Visitei cidades do interior do Pará, Amazonas e Amapá. Pude conversar com muita gente e testemunhar a vida de muitos amazônidas. Isto não quer dizer que eu saiba de muita coisa. Há bairros da minha cidade onde sequer pus os pés. Porém, o privilégio que tive de ter estudado na principal universidade da minha cidade, localizado em um bairro extremamente pobre, me permitiu ter um mínimo de noção de como o seu entorno pode ser chamado de vala ao céu aberto (há um bairro "nobre" aqui de Belém, perto das docas, que também tem uma grande vala ao céu aberto, mas tudo bem, lá é chique). Sobre o que não pude conhecer de perto, recorro aos dados.
E os dados são alarmantes. De 2007 a 2015 houve uma evolução de apenas 8,3% na quantidade de brasileiros com acesso à coleta de esgoto. Metade dos brasileiros, ou seja, aproximadamente 100 milhões de pessoas no Brasil não exercem uma rotina semelhante a minha que lhes permita viver com um pouco mais de dignidade. Menos da metade possui acesso a tratamento de esgoto. Muitos não têm acesso à educação, transporte e outros serviços que deveriam ser de melhor qualidade (e são para quem tem recursos financeiros para pagar por estes serviços). Mas além disso, estas pessoas, como a dona Miraci, moradora de Belém, não têm nem onde cagar.
Este vídeo deu o que falar na época por ser cômico (eu mesmo achei graça). Porém, a situação é trágica. E muito mais trágica aqui no Norte da Madre Teresa do Acre, sendo ela própria tendo nascido e crescido como participante e testemunha deste cenário de condições semelhantes as descritas acima. Hoje em dia, não mais (talvez a síndrome do lugar de fala tenha um fundo de verdade). Cinco das 10 piores cidades no quesito saneamento básico, segundo a mesma fonte de dados apontada acima, estão no Norte, sendo três capitais. Dominado por seus correligionários há anos, o Acre da Madre Teresa ainda sofre e muito com este problema: apenas cinco dos 22 municípios acreanos têm planos municipais de saneamento e quase 80% dos residentes de Rio Branco não têm acesso à coleta de esgoto.
Marina Silva se orgulha de sua gestão à frente do Ministério do Meio Ambiente, principalmente sua política de redução de desmatamento. Quantas vidas a Madre Teresa salvou? Quantas crianças foram salvas de doenças como amebíase, esquistossomose ou qualquer outra de veiculação hídrica? Doenças que nunca fizeram parte da realidade de muitos que após usar o vaso sanitário e lavar as mãos em água potável corrente, podem protestar no Facebook contra o desmatamento e o aquecimento global utilizando a internet móvel do celular enquanto almoçam em um meio ambiente confortável de um restaurante ou shopping center.
Não me confundam. Eu prefiro muito mais um igarapé do que praias em centros urbanos. Me sinto muito bem em ambientes distantes das grandes metrópoles. Adoro ir "pro meio do mato". O ambiente florestal me agrada bastante e ficaria descontente se um dia não tivesse mais a oportunidade de desfrutar disso.
E sem o papo furado de que Marina Silva não era Ministra da Saúde. É exatamente esta concepção de "política ambiental" que faz o Brasil ocupar o 112º lugar no ranking de saneamento básico de um conjunto de 200 países. O brasileiro precisa compreender o investimento em saneamento básico com uma perspectiva holista, em que cada real investido em tratamento de água e esgoto representa ganhos em diversas dimensões sócio-econômicas e na geração de um ambiente melhor para milhões de brasileiros.
Uma política ambiental que quer dar prioridade a um conceito difuso e abstrato de "meio ambiente" em detrimento de vidas humanas é uma "política do pau oco". Esta é a política ambiental Marina Silva. Está é a política ambiental que eu rejeito. No esgoto.

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